12 Aug, 2016

O comprometimento da safra 2015/16 da soja brasileira atingiu até o último dia 5 de agosto,85% da produção esperada, agora no mesmo patamar dos 85% da safra passada, e levemente acima dos 84% de 2014 e 2013. E desta vez vai ficando apenas ligeiramente acima dos 84% damédia normal de cinco anos para o período. O avanço foi de apenas 2% sobre o relatório anterior, divulgado no início de julho, sendo que na média de cinco anos o normal para esse avanço seria de 5%. Essa evolução em ritmo bemabaixo do padrão esteve essencialmente ligada à forte queda de preços observada durante omês de julho, levando a quase total ausência de interesse vendedor. Especialmente depois dospreços terem atingido recordes históricos durante o mês de junho. Tomando como base a previsão atual de produção da safra colhida em 2016 de 97,73 mls de t,temos um total compromissado pelos produtores brasileiros de 83,53 mls de t. Em igualperíodo do ano passado esse volume de produção negociado pelos rodutores estava bempróximo, chegando a 82,75 mls de t. Portanto, agora temos vendas muito próximas sobre o anopassado em termos relativos e absolutos. Considerando o elevado nível geral de capitalização, a opção dos produtores tem sido aguardar por novidades que o mercado possa apresentar, vendendo predominantemente na alta. Este foi exatamente o caso dos meses de abril, maio e junho, onde nada menos do que 24% da safra deste ano foi comercializada. Mas com a queda nas cotações a postura agora é de aguardar. A pergunta feita nessas últimas semanas tem sido recorrente: será hora de vender e assimilar a baixa, ou arriscar em alguma recuperação Considerando que as vendas estão adiantadas, que as perdas na América do Sul deixaram o mercado internacional dependente de uma grande safra nos EUA, recomendamos que os vendedores sigam cautelosos em sua comercialização. Especialmente após a queda ocorrida nessas últimas semanas. Considerando sempre a possibilidade de algum repique de natureza climática nos EUA (weather market) nas próximas 4 a 5 semanas, a possibilidade sempre latente de novas agitações no mercado de câmbio, o elevado grau de disputa entre os compradores na temporada (exportação x mercado interno), e a tendência de virarmos o ano com reduzidos estoques domésticos, dá para esperar ainda novas oportunidades para os preços internos durante esse próximos 6 meses, até que a nova safra comece a entrar no mercado. O fluxo segue homogêneo em boa parte da região produtora, com exceção da região do MAPITO (Maranhão, Piauí e Tocantins), onde as taxas de comprometimento estão praticamente se encerrando e seguem muito superiores às médias históricas. Ainda na região Nordeste, temos os 96% de vendas na Bahia, ficando também acima da média normal. Na região Sul, os compromissos variam de 70 a 78%, igualmente acima das médias. Na região Sudeste essa relação está diferente, uma vez que os 85% anotados em Minas Gerais e os 75% anotados em São Paulo estão aquém do padrão médio. No Centro-Oeste as taxas variam de 86 a 95%, acima do padrão normal para o período no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Mas ainda abaixo da média em Goiás. DEPOIS DOS RECORDES, PREÇOS CAEM FORTE EM JULHO Os preços domésticos da soja oscilaram de forma homogênea pelo país durante o último mês, com queda forte em todas as praças de negociação, e invertendo o movimento de alta sequencial observado em abril, maio e junho. Desta vez a queda nas cotações esteve ligada à combinação de recuo na taxa de câmbio e a retração expressiva no mercado de futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT na sigla em inglês). Apenas com firmeza nos prêmios de exportação. Conforme podemos acompanhar pela segunda tabela desta edição, tomando algumas das principais praças de negociação do país, durante abril tivemos altas nos preços oscilando entre 2 e 6% sobre as bases de março, em maio, os preços avançaram de 12 a 21% sobre abril, e em junho fechamos com altas variando de 9 a 13% sobre maio. Agora em julho temos quedas oscilando entre 7 e 10% sobre as bases de junho. Mesmo assim, no comparativo com igual período do ano passado ainda temos variações amplamente positivas, oscilando entre impressionantes 14 e 31% nas cotações em reais. Já em dólares temos agora avanços de 18 a 35%. Na CBOT a média parcial de julho ficou em US$ 1062.50 cents/bushel, recuando 7% sobre os US$ 1145.67 cents do mês anterior. Depois de mais de 6 meses com os preços travados entre US$ 850.00 e US$ 900.00 cents, tivemos finalmente a ruptura da forte resistência dos US$ 900 cents em abril, acumulando elevação de 29% até junho, para atingir cotações recordes em todo o país. As razões principais da alta foram: *Perdas contabilizadas no Brasil. De uma safra potencial de 102 a 103 mls de t, estamos fechando a produção em 97,8 mls de t. Problemas decorrentes da irregularidade do clima em diversos estados, especialmente na região Centro-Norte. *Perdas contabilizadas na Argentina. De uma safra potencial de 60 a 61 mls de t, estamos trabalhando com produção entre 55 a 56 mls de t. Perdas decorrentes principalmente do excesso de chuvas ocorrido no pampa úmido durante o mês de abril. *Manutenção de firme demanda global em todo o complexo soja, favorecido pelo aumento da renda, pelo avanço da produção de carnes, pelo aumento na produção e consumo de biodiesel e pelos baixos preços médios históricos. *Queda do câmbio e elevados valores de prêmios no Brasil, favorecendo o aumento da demanda por produto dos EUA. *Provável decréscimo nos estoques nos EUA, uma vez que o ligeiro aumento esperado agora para a área não seria suficiente para reverter a tendência de estoques menores. *Possível retração da área a ser plantada na Argentina no final do ano. *E no lado financeiro, pelo retorno gradativo dos investidores na ponta compradora, estimulados pelos baixos preços, pela recuperação parcial do petróleo e pela queda momentânea do dólar. As principais motivações da queda: *No mercado financeiro tivemos o aumento das incertezas em função da decisão dos britânicos em se retirar da União Européia (BREXIT), que deve trazer perda no potencial de crescimento da região e alguma perda para o PIB mundial. Em linha com o aumento da aversão ao risco, investidores promoveram pesadas vendas de commodities agrícolas nessas últimas semanas. *A perda sequencial dos suportes de US$ 11.00 e US$ 0.00/bushel na CBOT também aconteceu por conta do comportamento satisfatório das lavouras de verão nos EUA. Além da obtenção de rendimentos recordes na safra de trigo de inverno, temos até o último final de semana em condições boas a excelentes, 72% das lavouras de soja, 76% de milho e de 76% do trigo de primavera. Em relação ao câmbio, a taxa recentemente perdeu parte de seu patamar depois de ter atingindo o pico de quase R$ 4,20, passando agora para a faixa de R$ 3,20 a R$ 3,30. Em julho a média ficou em R$ 3,2788, com recuo de 4% sobre mês anterior. A pressão aconteceu basicamente pela combinação das seguintes variáveis externas e internas: *Dólar praticamente estabilizado no mercado internacional, em cima de números mais conservadores para a economia dos EUA e o adiamento momentâneo de novas altas nos juros. Especialmente depois da decisão de saída do Reino Unido da União Européia. Com esse último episódio a direção do dólar passou a estar mais imprevisível. *A nível interno, a taxa perdeu força pelo avanço do processo de impeachment da presidente Dilma, com o aumento do fluxo cambial para dentro do país com a melhora do viés econômico, e com a postura da nova equipe econômica em diminuir as intervenções no mercado de câmbio e priorizar o combate à inflação. Com isso seguimos sugerindo o intervalo de expectativa para R$ 3,00 a R$ 3,50. Apesar das dificuldades políticas que o país ainda irá enfrentar e o estado lastimável da economia. Em relação aos prêmios de exportação, tivemos de junho para julho nova alta, passando de +US$ 132 cents para +US$ 160 cents/bushel, incorporando ágio sobre a desvalorização na CBOT. Suporte por firme interesse comprador combinado com a baixa disponibilidade da oferta por conta das perdas registradas na produção sulamericana. Apesar de mais nominais, a tendência para agosto e setembro segue de valores superiores aos do ano passado. Sobre a nossa sugestão de postura aos vendedores na comercialização nesse último mês, vale recordar a recomendação feita neste espaço no relatório anterior: No lado externo, acreditávamos que havia suporte para a CBOT se manter próxima dos US$ 11.00, mas alertávamos para as incertezas trazidas no âmbito financeiro pelo BREXIT e pelo bom andamento da nova safra nos EUA. E que não havia sinais de arrefecimento dos prêmios. No lado interno, comentávamos da tendência conservadora do câmbio entre R$ 3,00 e R$ 3,50, mas a manutenção de suporte interno sobre a paridade pela disputa acirrada entre indústria e exportadores. Por esses motivos não recomendávamos a venda, especialmente em função das perdas de preços que já começaram a acontecer no final de junho e início de julho. Mas o que deu errado nessa sugestão Considerando os prêmios subindo como o previsto e que o câmbio permaneceu onde esperávamos, a surpresa foi o recuo muito acima do esperado para a CBOT. De um lado pela questão financeira, e de outro pela excepcional evolução das lavouras nos EUA, uma vez que as insistentes previsões de clima quente e seco para boa parte do Meio Oeste a partir do final de julho simplesmente não se confirmaram. E qual a postura a ser adotada para esses 15% restantes No lado externo, entendemos que não há garantia de que os preços na CBOT já tenham atingido o fundo do poço, diante das incertezas pelo lado financeiro e pelas previsões de clima favorável para boa parte do Meio Oeste nessas próximas semanas. Mas a firme demanda mundial e, em especial, por produto norte-americano, e a possibilidade de retração na área da nova safra da Argentina, tende a manter as cotações ainda em patamares superiores aos de igual momento do ano passado. Além disso, não há sinal de arrefecimento nos valores dos prêmios, pelo menos até setembro. No lado interno, mantemos a expectativa de câmbio entre R$ 3,00 a R$ 3,50. Mas seguindo com firme disputa entre exportadores x indústria por cada lote ofertado. Em função disso, pelo já elevado volume de comprometimento, pela tendência de estoques finais apertados e pelo longo período que ainda temos até a entrada da nova safra, não recomendamos a venda. A recomendação de venda ficaria apenas para aqueles com compromissos urgentes, ou aproveitar eventual relação de troca favorável para a compra dos insumos da próxima safra. Depois da disparada das negociações da safra nova ocorrida em abril, o fluxo de negócios caiu muito durante os meses de maio e junho. E foram bastante modestos também em julho. Em abril, a grande motivação veio com a combinação de aparecimento do interesse comprador futuro na exportação, trazendo o enquadramento de prêmios positivos para a safra nova, a prática de preços remuneradores no próximo ano em decorrência do repasse da alta do câmbio também para o mercado de câmbio futuro da BM&F, e o travamento do custeio através das operações de troca/barter. Mas com a alta na CBOT em maio e junho acontecendo em patamares acima do esperado, os vendedores optaram por uma posição mais conservadora nas ofertas, para aguardar os acontecimentos climáticos na definição da nova safra norte-americana. Mas que até agora acabaram não acontecendo. De acordo com o levantamento da FJC, até o dia 5 de agosto chegamos a 20% da produção esperada para 2016/17 já compromissada pelos produtores brasileiros. O fluxo agora se encontra bem inferior aos 26% desta última safra, invertendo de posição desde o relatório anterior. E segue também levemente abaixo dos 21% da média para os últimos cinco anos. Para efeito deste levantamento, utilizamos o exercício inicial de projeção para a nova safra brasileira em cima do levantamento de intenção de plantio divulgado em 29 de julho. Esse exercício preliminar apontou área 1,5% superior à deste ano, chegando a 33,86 milhões de hectares. Considerando um rendimento médio dentro da normalidade, e chegando a 3.085 kg/ha, chegaríamos a uma produção potencial de 104,48 mls de t.Isso significa que até o momento temos teoricamente 20,82 mls de t de soja da safra nova já comprometida pelos produtores brasileiros. Em igual momento do ano passado esse volume já chegava a 25,41 mls de t. Destaque para os 28% de comprometimento da safra no Mato Grosso, 28% em Goiás, de 24 a 31% na região do MAPITO, os 22% na Bahia, os 19% de Minas Gerais e os 18% do Mato Grosso do Sul. Sendo que agora com maioria em patamar abaixo da média. Fonte:Flávio Roberto de França Junior Consultor Econômico Especialista em Ag