Semente Bt promete resistência às lagartas Especialistas são categóricos ao afirmarem que é preciso respeitar o refúgio, o vazio sanitário e seguir o manejo indicado pelo fabricante para o êxito da tecnologia O sucesso da soja Bt está nas mãos dos produtores. Especialistas afirmam que o melhor resultado depende essencialmente do manejo adotado pelo agricultor. “Respeitar o refúgio e o vazio sanitário é fundamental para a longevidade da tecnologia”, afirma Adriano Loeff, presidente da Fundação Chapadão (MS). A soja Bt é a mais nova tecnologia disponível para os produtores no combate às lagartas da soja, falsa-medideira, broca das axilas e das maçãs, e teve a primeira colheita comercial nesta safra 2013/2014. Segundo Loeff, se não seguir as recomendações de manejo, o produtor terá as mesmas perdas observadas no milho Bt, que não está segurando a tecnologia. Ele ressalta ainda que faltam pesquisas para encontrar variedades mais adaptáveis e produtivas, e que melhor se comportem no campo. “São necessárias mais pesquisas sobre as variedades para que o produtor tenha conhecimento e possa escolher aquelas com maior produtividade, capazes de garantir melhor desempenho”, defende. “O uso da tecnologia na agricultura é um caminho sem volta. A soja convencional demanda muita aplicação ainda, o que acaba contaminando o solo”, diz Loeff. Para ele, o uso de biotecnologia é importante e traz benefícios, como a redução no número de aplicações de defensivos. “O meio ambiente agradece e todo mundo sai ganhando quando há um maior controle de aplicações”, acrescenta. Para Renato Carvalho, gerente de regulamentação da Monsanto – detentora da tecnologia Intacta RR2 Pro™ –, um dos principais desafios é a preservação e a sustentabilidade da nova tecnologia, que dependem do cumprimento das recomendações de Manejo de Resistência de Insetos (MRI) pelos produtores. “Entre elas, a adoção das áreas de refúgio estruturado, que garante a eficácia e a longevidade à tecnologia”, acrescenta. Segundo ele, após 11 anos de estudo, essa é a primeira biotecnologia desenvolvida especialmente para um mercado fora dos Estados Unidos, com foco exclusivo nos países da América do Sul, onde a incidência de lagartas é recorrente. Em relação à primeira geração de soja transgênica, a Intacta RR2 Pro™ oferece, além da tolerância ao herbicida glifosato, o controle das principais lagartas e a supressão às pragas do tipo elasmo e do gênero Helicoverpa (Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera). Gil Câmara, professor do Departamento de Produção Vegetal da Esalq/USP, lembra que é muito comum os produtores acharem que a tecnologia controla todos os tipos de lagartas e que, por isso, não há necessidade de aplicação de defensivos. “Não é verdade. O produtor precisa ficar atento ao fato de que a tecnologia controla determinadas pragas e não todas, e, por isso, ele deve manter as aplicações para as demais lagartas não controladas pela nova tecnologia e que estejam em nível populacional de dano econômico”, afirma. Para o especialista, o produtor que optar por esse tipo de tecnologia deve ficar atento ao manejo, pois, ao negligenciar a área de refúgio, pode ter problemas com a eficiência e prejudicar a tecnologia. “Toda e qualquer ferramenta deve seguir orientações do fabricante e na biologia vegetal não é diferente. Há uma série de recomendações para se obter mais segurança no uso da tecnologia empregada”, acrescenta. Para o professor Câmara, quando há o uso correto do manejo, a tecnologia tende a funcionar bem. Afinal, se há erros em algum momento na forma de manipular a tecnologia ou se não é feito o rodízio de moléculas, seu uso repetitivo resulta em uma resistência maior daquilo que se está controlando – ervas daninhas ou pragas. “É preciso ser mais criterioso quando há queixas sobre a eficiência da tecnologia, pois é necessário saber se houve a aplicação correta ou não. Dessa forma, se houver um aumento de população resistente à tecnologia, todo o agrossistema será afetado, causando problemas sérios e, às vezes, exigindo até mesmo soluções radicais”, afirma. Daniel Ricardo Sosa-Gomez, pesquisador da Embrapa Soja, alerta que o produtor não pode, em hipótese alguma, descuidar do monitoramento das pragas. “A utilização da tecnologia não é isenta de atenção e o produtor precisa continuar a monitorar a soja Bt e a área de refúgio”, explica. Segundo ele, é preciso saber reconhecer quais as pragas presentes e combatê-las de forma planejada e precisa. Para o pesquisador, a vantagem do uso da soja Bt é a redução de aplicações de inseticida. Por consequência, o produto ajuda na sustentabilidade do meio ambiente, menor contaminação do solo e ainda reduz problemas com determinadas pragas. No entanto, o mau uso da tecnologia e as falhas de manejo tornam os insetos mais resistentes. “Assim o produtor volta à estaca zero e não controla as pragas”, ressalta Gomez. A diversidade de plantio, ou seja, o uso da Bt e também da convencional (refúgio) ajuda a manter a tecnologia, recomenda Sosa-Gomez. O produtor deve sempre – seja soja Bt ou não – reconhecer as lagartas e pragas existentes em sua propriedade para tomar a decisão correta quanto ao manejo de controle. “Há muita confusão porque as lagartas são muito parecidas e os insetos são difíceis de distinguir. Para informar, há manuais de identificação disponíveis no mercado, além de consultar um profissional especializado nessa área. Quanto mais souber quais são as espécies sensíveis às toxinas, melhor o produtor aplicará o produto correto para o controle das pragas”, diz. José Fernando Grigolli, pesquisador da Fundação MS, diz que a recomendação é para o produtor utilizar área de refúgio de forma adequada em pelo menos 20% da área e distância máxima de 800 metros. “É importante frisar que, na área de refúgio, o controle de lagartas pode ser realizado desde que evitando o uso de produtos à base de Bacillus thuringiensis”. Conforme o pesquisador, os produtores estão confiantes na tecnologia, mas ainda avaliam a relação custo-benefício. Ele acredita que, para as próximas safras, deva aumentar a área plantada com a tecnologia Intacta. Além disso, o gene inserido na Intacta hoje é cry1Ac. Nos próximos anos deverá ocorrer a inserção de novos genes na soja, o que aumentará o espectro de ação da tecnologia e possibilitará um manejo mais adequado da resistência das pragas”, avalia. Para o pesquisador, a principal vantagem desta tecnologia é ser uma ferramenta de controle de lagartas na soja, entretanto, nenhuma tecnologia isolada solucionará de fato a questão de pragas na lavoura. As desvantagens são relacionadas ao elevado custo das sementes e à possibilidade de populações de insetos evoluírem em resistência e de a eficiência de controle reduzir ao longo do tempo. As questões de manejo de resistência se tornam ainda mais importantes se se considerar o uso da tecnologia Bt em milho e algodão. Esse cenário aumenta de forma significativa a pressão de seleção nas pragas, ou seja, lagartas comuns às duas culturas (como Spodoptera, lagarta-da-maçã, Helicoverpa e falsa-medideira) estarão expostas, por vários ciclos sucessivos, a um mesmo modo de ação de inseticidas. Com o aumento da pressão de seleção, as populações evoluem de forma mais rápida para a resistência. Assim, se não forem adotadas estratégias adequadas, como o refúgio correto, a longevidade da proteína será reduzida e colocará a tecnologia em risco, pois pode haver quebra de resistência.
