Especialistas alertam que a prática agrava problemas fitossanitários, eleva custos e limita a produtividade Foi uma experiência negativa. Na manhã do dia 1º de fevereiro deste ano, o produtor William Cezar Strey, da Fazenda Pacoval, de Santa Rita do Trivelato (MT), colheu a safra de soja. À tarde, plantou a safrinha de soja em um pedaço de 14 hectares da área total de 810 hectares. “Fiz uma lavoura pequena para testar, já que o milho tornou-se uma opção complicada para produtores da minha região, em razão do alto custo logístico que chegou a 70% de seu custo de produção. Mas a pressão das doenças de final de ciclo, como a ferrugem e a antracnose, foi muito grande. Fiz quatro aplicações e colhi somente nove sacas por hectare. Fiquei com receio também de perder a tecnologia da semente. Não tenho a intenção de repetir”, afirma. A adoção da safrinha de soja tem demonstrado ser uma escolha de alto risco para os produtores, capaz de inviabilizar inclusive a safra normal. Faltam informações básicas ao produtor a respeito do manejo da soja durante a safrinha, desde população de plantas e adubação até o controle de pragas e doenças. Na opinião dos especialistas, o crescente interesse pelo cultivo de soja safrinha vem agravando problemas fitossanitários, como a ferrugem asiática da soja e o nematoide de cisto. Ricardo Abdelnoor, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Soja, explica que, além desses problemas, outras doenças causadas por fungos de solo e mesmo por outros nematoides têm sido observadas com maior intensidade. “Mas o problema não está restrito a doenças. Ataques de populações de insetos-pragas, principalmente percevejos, mosca-branca, lagarta helicoverpa, ácaros e percevejo-castanho têm sido observados com maior frequência”, afirma. Em relação aos insetos, Abdelnoor diz que é preciso considerar que o processo de seleção de insetos resistentes às táticas de controle (inseticidas ou plantas Bts) também será acelerado, pois as tecnologias de controle serão as mesmas em ambas as safras e, portanto, exercerão pressão de seleção por mais tempo. “Vale ressaltar que a intensidade desses efeitos negativos está diretamente relacionada ao tamanho da área que a soja vier a ocupar na segunda safra; quanto maior a área plantada mais graves e intensos serão esses problemas”, alerta o pesquisador. O controle de plantas daninhas e/ou plantas espontâneas remanescentes da cultura anterior são preocupações adicionais, incluindo aqui a safra normal de soja, acrescenta Abdelnoor. “À medida que se usa de modo continuado e exagerado a mesma tecnologia, como a soja transgênica resistente a herbicidas, ocorre maior pressão de seleção dos biótipos resistentes a este herbicida. Como exemplo, é possível citar o razoável número de plantas daninhas que se tornaram resistentes ao glifosato, utilizado de forma repetitiva em lavouras com soja RR. Ao considerarmos duas safras seguidas com plantio de sementes com as mesmas características é possível prever o agravamento do problema que já é sério”, atesta. Outra observação feita pelo pesquisador mostra que o cultivo de soja safrinha, especialmente quando realizado após a soja verão, fatalmente vai aumentar o custo de produção pelo maior consumo de defensivos e fertilizantes. “O uso contínuo dessa prática possivelmente irá limitar a obtenção de altas produtividades de soja na safra normal e aumentar o risco de perdas de produção em decorrência de estresses ambientais bióticos (doenças, insetos e plantas daninhas) e/ou abióticos”, complementa. As condições climáticas no período de cultivo da soja safrinha, como chuva, temperatura do ar e comprimento do dia, não são as ideais para obtenção de altas produtividades, considerando as cultivares disponíveis no mercado. Nematoides Uma série de ferramentas eficientes de manejo para as cinco espécies de nematoides que atacam a soja – M. javanica, M. incognita, H. glycines, P. brachyurus e R. reniformis – consegue manter as densidades muito baixas, assegurando produtividade elevada nos locais infestados. No entanto, para atingir a eficiência no manejo, as ferramentas devem ser utilizadas de forma conjunta, como, por exemplo, com a adoção de cultivares resistentes consorciados a defensivos, manejo de entressafra, rotação de culturas e manejo biológico, contribuindo para que os nematoides permaneçam abaixo do nível de dano econômico. São raras as propriedades rurais ainda não infestadas por, pelo menos, uma das espécies dos principais nematoides da soja. Apesar disso, na safra 2013/2014 o plantio da soja safrinha tornou-se mais intensivo no Mato Grosso. Rosangela Silva, pesquisadora em Nematologia da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária do Mato Grosso (Fundação MT), explica que nematoides não se multiplicam na ausência da planta hospedeira. “Com o plantio da soja safrinha, não há dificuldade em sua multiplicação e a infestação tende a aumentar, podendo até ultrapassar o nível de dano econômico”, complementa. O pesquisador da Embrapa Soja, Waldir Dias, relata que a monocultura favorece o desenvolvimento das populações de nematoides, considerando a oferta de alimento de forma ininterrupta. “Há uma preferência variada em relação a plantas hospedeiras, sendo que algumas não permitem o desenvolvimento adequado da praga, como algumas espécies de crotalárias e cultivares de milheto. “Existem algumas práticas principais para o controle de nematoides em soja. A primeira, e mais eficiente, é a rotação de culturas, ou seja, a substituição da soja por outra cultura ou planta não hospedeira. Em segundo lugar está a utilização de cultivares resistentes ao nematoide, quando disponíveis, e a terceira é a adoção de boas práticas de manejo do solo e da cultura, como adubação adequada e equilibrada, ausência de compactação de solo, adubação verde, controle de plantas daninhas, insetos e doenças etc. – por aumentarem a tolerância da soja ao ataque de nematoides. No entanto, nenhuma dessas estratégias usada isoladamente resolve o problema, sendo ideal a combinação das três”, esclarece Waldir Dias. Mario Inomoto, professor de Nematologia do Departamento de Fitopatologia e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), lembra que existem cultivares de soja resistentes aos nematoides de cisto, das galhas e reniforme. “É a técnica mais recomendada para esses nematoides. Outras opções são o tratamento de sementes com produtos químicos ou biológicos ou ainda a aplicação de produtos nematicidas no sulco de plantio. O manejo de características do solo que influenciam a atividade dos nematoides ou a tolerância das plantas (pH, saturação de bases, matéria orgânica etc.) também tem seu valor”, conclui Inomoto, lembrando que os nematoides causam principalmente perdas de produtividade, mas eventualmente podem prejudicar a qualidade dos grãos, com redução do tamanho. Vazio sanitário A Embrapa Soja iniciou ensaios de campo na safra 2013/2014 com o objetivo de avaliar e elucidar os efeitos do cultivo da soja safrinha nos sistemas de produção, avaliando cultivares, espaçamento entre fileiras, densidade de plantas e estratégias de fertilização. Os resultados estão sendo analisados, mas, em relação à ferrugem asiática já é possível adiantar que foi o fator mais limitante na condução desses ensaios, considerando-se que, mesmo com até sete aplicações, não se obteve controle efetivo da doença. Entretanto, como, em geral, esses experimentos são de longa duração, não é possível obter resultados consistentes em poucos anos de pesquisa. “Todos os riscos devem ser levados em conta pelo produtor de soja ao decidir pela prática de soja safrinha, especialmente aqueles relacionados ao eminente desenvolvimento de resistência a agrotóxicos. A alta incidência de ferrugem asiática da soja, ainda no início do período vegetativo, demonstra que uma grande quantidade de esporos do fungo, multiplicado na safra normal de soja, se disseminou na safrinha. Isso reforça a adoção do vazio sanitário, ou seja, um período sem a planta hospedeira do fungo no campo. O agravante, ainda, é que nessa situação, ou seja, com a ferrugem ocorrendo bem precocemente, embora tenham sido realizadas até oito aplicações de fungicidas, não se observou controle efetivo da doença”, diz Ricardo Abdelnoor. O pesquisador alerta que os fungicidas utilizados no controle da ferrugem asiática da soja pertencem apenas a três grupos químicos sendo todos sítios específicos e, dessa forma, trazem um grande risco de resistência, agravando a severidade da doença, considerando-se pelo menos o dobro de aplicações anuais dos mesmos produtos. “O risco de desenvolvimento de resistência, no mínimo, deve ser multiplicado por dois. O mesmo raciocínio deve ser feito em relação a herbicidas e inseticidas”, afirma Abdelnoor. Fonte:Portal KLFF
