Uma resistência difícil de ser modificada Diabólica ou redentora? Pecadora ou santa? Poucas empresas no mundo polarizam as opiniões mais do que a Monsanto, a multinacional americana de organismos geneticamente modificados. Para os que se opõem à companhia, ela é um implacável monólito do setor agrícola que lança mão da tecnologia que desenvolve para dominar a cadeia alimentar com suas sementes transgênicas, ao mesmo tempo em que mantém um rígido controle sobre os produtores rurais no acesso a patentes e a acordos de licenciamento. Seus defensores, no entanto, realçam a importância de seu papel na busca do aumento da produtividade agrícola e a consideram na vanguarda do aprimoramento do rendimento das colheitas tendo em vista as perspectivas de crescimento da população global nas próximas décadas. Hugh Grant, principal executivo da Monsanto, tem profunda consciência dessa dicotomia. E, dificilmente comparável a um vilão de filme de James Bond, esse escocês realista admite que a empresa deveria ter se envolvido com um público mais amplo no passado. "Acho que, em visão retrospectiva, foi errado [esse não envolvimento]", afirma Grant. Para começar, diz, parte das dificuldades nas conversas com os consumidores derivava do fato de que poucas pessoas tinham um bom conhecimento sobre agricultura. Mas ele reconhece que esse fator, por si só, era uma desculpa. "Não se pode enquadrar isso na perspectiva de "você não conhece muito o assunto", porque todo mundo tem uma relação visceral com o alimento". Aos 55 anos, Grant, que esteve recentemente em Londres para uma palestra em uma conferência, o executivo acrescenta que a distância da Monsanto em relação aos consumidores finais ampliou o problema: "As pessoas compram marcas, e nós, literalmente, não tocamos no consumidor. [Enquanto isso,] há muito por fazer para desmistificar o que são produtos transgênicos". Os comentários do executivo refletem uma crescente consciência entre as grandes empresas de agronegócios e alimentos sobre a intensificação das discussões dos consumidores sobre os alimentos que ingerimos. Os organismos geneticamente modificados (OGMs) e a Monsanto, líder mundial em sementes, estiveram na dianteira dessas preocupações, com a amplificação da ansiedade que cerca a combinação entre alimentos e tecnologia. Stacy Malkan, da organização não-governamental Amigos da Terra, afirma que a hegemonia da Monsanto e de outras empresas do agronegócio levanta relevantes interrogações sobre a segurança da oferta mundial de alimentos. "As pessoas estão preocupadas com o controle corporativo do sistema alimentar e com o fato de algumas poucas empresas deterem o DNA das sementes dos nossos produtos alimentícios agrícolas mais importantes", observa ela. A rotulagem dos alimentos transgênicos deverá ser o próximo foco dos ataques dos opositores (ver matéria abaixo). Mas, embora grupos anti-transgênicos, ativistas ambientais e alguns agricultores sejam críticos acerbos, há, provavelmente, o mesmo número de defensores dessa tecnologia entre acionistas e analistas. Desde que Grant assumiu o comendo da Monsanto, em 2003, o lucro líquido da empresa subiu de US$ 267 milhões para US$ 2,5 bilhões, e o valor de suas ações mais que decuplicou, para US$ 109. Após ser criada em 1901 como uma produtora de sacarina, a Monsanto foi uma das fabricantes do famigerado desfolhante "agente laranja" durante a Guerra do Vietnã - de 1955 a 1975, com envolvimento direto dos Estados Unidos a partir de 1965. A companhia começou a comercializar o herbicida Roundup em 1976, e, seis anos depois, seus cientistas foram os primeiros a modificar geneticamente uma célula vegetal. O segmento de biotecnologia agrícola avançou por meio de aquisições e culminou com o lançamento, em 1996, de sementes transgênicas de soja resistentes ao Roundup. Em 2000, a última patente do Roundup da Monsanto expirou e, como principal executivo da área operacional da empresa, Grant mudou o foco para as sementes. A guinada valeu a pena: no exercício encerrado em agosto de 2013, sua divisão de sementes e genômica representou quase 70% dos US$ 14,9 bilhões em vendas contabilizados pela multinacional. Grant ingressou na Monsanto em 1981, na Escócia, como vendedor. Trabalhou por dez anos na área de vendas, desenvolvimento e gestão de produtos antes de se mudar para a sede do grupo em St. Louis, no Estado americano de Missouri, e assumir o cargo de diretor mundial de estratégia para a agricultura. No ano passado a companhia também intensificou seus esforços no segmento de agricultura de precisão - que envolve monitoramento com GPS, análise de dados e sensoriamento remoto avançados, entre outras ferramentas - com a aquisição, por quase US$ 1 bilhão, da empresa de dados Climate Corporation, sediada em San Francisco. Grant fica mais animado ao descrever as novas áreas que a Monsanto está desbravando, e observa que os investimentos em pesquisa de enzimas e transmissão de informação genética, bem como a análise de dados, contribuirão para a principal meta da empresa. "O objetivo é aumentar a produtividade, coisa que, na minha opinião, será desesperadamente necessária". Bill O"Connor, da gestora de investimentos Capital Innovations, diz que Grant pôs a Monsanto no caminho do crescimento. "Ele realmente lançou os alicerces do crescimento da companhia, porque reinvestiu em tecnologia e ciência e ampliou o desenvolvimento de produtos", diz. No entanto, Doug Gurian-Sherman, cientista-sênior do grupo ambiental Union of Concerned Scientists (União dos Cientistas Responsáveis, em tradução livre), diz que as grandes empresas como a Monsanto contribuíram para criar um sistema não sustentável que promove a degradação do solo, amplia o uso de herbicidas - na medida em que ervas daninhas desenvolvem resistência -, e gera maior utilização de pesticidas. "A natureza do que precisamos na agricultura pode não sustentar um modelo de negócios como o da Monsanto dentro de cinco ou dez anos", afirma ele. Mas os críticos não conseguiram dissuadir os diversos pesquisadores e cientistas que trabalham na empresa. Além disso, a Monsanto firmou parcerias com instituições como as fundações beneficentes de Bill Gates e Howard Buffett (filho do investidor Warren Buffett), bem como com o Programa Mundial de Alimentos da ONU e com a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). Apesar da polêmica que cerca a empresa, é inquestionável que Grant gosta de seu papel. "Muito do que fazemos em agricultura tem sentido - tem relevância e aplicabilidade, e isso faz a diferença", conclui o executivo. Fonte: Valor Econômico Por: Emiko Terazono e Neil Munshi, do Financial Time
