Iniciada há quase uma semana, a paralisação de caminhoneiros estrangula a distribuição de óleo diesel para as máquinas das fazendas produtoras de grãos, o que prejudica a continuidade dos trabalhos no pico da colheita de soja. A situação é mais grave no norte de Mato Grosso, servido basicamente pela BR-163, uma das rodovias afetadas pelos bloqueios. "Virou um caos, e perdas na produção já são inevitáveis", disse Antonio Galvan, presidente do sindicato rural de Sinop, um dos mais atingidos pela escassez de diesel. A estimativa é que 70% da área ainda esteja por ser colhida na região. Conforme Galvan, já havia grãos "avariados" no campo por conta do excesso de chuvas da semana passada, e os agricultores vinham se apressando para colher desde o fim de semana, quando o tempo ficou mais firme. "Agora, tivemos que parar os trabalhos por falta de combustível. E pior, as previsões dizem que as chuvas vão voltar esta semana, o que deve complicar de vez", disse. Nos chamados "TRRs" (Transportador Revendedor Retalhista), distribuidores que realizam a venda direta de diesel às fazendas, já não há combustível desde sábado em Sinop. E mesmo que os bloqueios sejam suspensos, a tendência é de que a situação leve tempo para ser normalizada. "Mesmo que os caminhões voltem a rodar imediatamente, vai levar no mínimo cinco dias para que a região aqui volte a ser abastecida, porque o diesel vem de Paulínia (SP) ou Goiânia (GO)", estimou Galvan. Em Tapurah, no médio-norte de Mato Grosso, os agricultores ainda não pararam a colheita porque "todo mundo está se socorrendo", segundo Silvésio de Oliveira, representante local da Aprosoja/MT, associação que reúne os produtores de soja do Estado. "Já está começando a faltar, e quem não tem vai buscar no posto de combustível ou pede emprestado a um vizinho", afirmou. Para quem está conseguindo avançar na colheita, a preocupação é onde deixar os grãos recém-colhidos, já que a infraestrutura de armazenamento é insuficiente para a produção recorde esperada para esta safra. Os transtornos também são visíveis "fora da porteira", com forte redução do número de navios chegando aos portos. Preocupada, a Associação dos Exportadores de Cereais (Anec) divulgará hoje um comunicado ao mercado internacional alertando sobre dificuldades nos embarques futuros. Nos últimos 15 anos, esta será a "terceira ou quarta vez" que a Anec fará um "announcement", disse o diretor-geral Sérgio Mendes. A turbulência no escoamento da soja tem criado tensão entre os importadores do grão brasileiro, principalmente entre os processadores chineses. Os analistas acreditam que, caso o protesto se prolongue, algumas esmagadoras podem cancelar a compra da soja brasileiro e recorrer aos americanos, que ainda têm bastante grão da safra 2014/15 em estoque. "Está fresco na memória [dos compradores chineses] os atrasos nas exportações de 2012/13. Custou muito dinheiro para eles", observou Pedro Dejneka, sócio da consultoria AGR Brasil, em Chicago. A possibilidade de uma reedição dos atrasos nos embarques brasileiros afeta as negociações dos contratos futuros da soja no mercado internacional, já que o Brasil é vice-líder mundial das exportações globais do grão. Ontem, os lotes de segunda posição subiram 1,72% (17,25 centavos de dólar), a US$ 10,1875 o bushel. Os receios com uma interrupção nas exportações brasileiras também impulsionaram os preços do açúcar demerara na bolsa de Nova York. O Brasil é o maior exportador mundial do produto. Nesse caso, os compradores receiam que a redução do fluxo de caminhões aumente a competição por transporte entre açúcar e soja e milho, como costuma ocorrer nessa época do ano, explicou Tom Kujawa, analista da Sucden Financial, em relatório a clientes. Os preços do açúcar demerara só não fecharam com alta expressiva porque a chuva no Centro-Sul melhora as expectativas para a nova safra. Os contratos de segunda posição fecharam a 14,15 centavos de dólar a libra-peso, alta de 2 pontos em Nova York. Por Mariana Caetano, Camila Souza Ramos e Fernanda Pires Fonte: Valor Econômico