02 Sep, 2015

Como se não bastassem todas as turbulências financeiras nos mercados doméstico e externo, o clima da próxima safra brasileira (2015/16) também promete testar os nervos dos produtores brasileiros de soja e milho. E isso por conta do desenvolvimento do El Niño, que de fato deverá mudar o regime de chuvas na fase de plantio nos principais polos do país. O Centro-Oeste poderá enfrentar problemas, mas a região Sul tende a ser beneficiada, num jogo de perdas e ganhos que, no momento, parece não ameaçar, ao menos no caso da soja, mais uma colheita recorde. O Centro-Oeste, de onde sai a maior parte da colheita de grãos do país, deverá receber chuvas irregulares e pontuais ao longo de toda a primavera - ou seja, até dezembro -, por influência das massas de ar originadas no sul do Pacífico, segundo Marco Antonio dos Santos, da Somar Meteorologia. "Isso significa que a soja e as culturas de primeira safra terão que ser plantadas em doses homeopáticas". Assim, a semeadura poderá ser mais lenta que em 2014. Em 2014/15, o plantio atrasou na região, por causa de chuvas ininterruptas na segunda metade de setembro, e ganhou fôlego apenas em outubro, quando praticamente não houve precipitações. No "Matopiba" (confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde quase todos os anos os agricultores encaram um período de cerca de 20 dias sem chuvas durante a primavera, o próximo veranico poderá ser mais prolongado. "O problema é se chover e os produtores começarem a plantar antes desse período", alertou Santos. Os produtores do Sul, por sua vez, deverão ser beneficiados. Em anos de El Niño, a região costuma receber precipitações elevadas e constantes - e neste ano não deverá haver "invernadas" (longos períodos de chuva que atrapalham a semeadura) como houve em 2014. "Toda semana haverá bons episódios de chuva, mas com mais intervalos", afirmou. Dessa forma, além de ajudar a soja, o clima deverá favorecer também o plantio de arroz no Rio Grande do Sul, que no ano passado foi dificultado pelo longos períodos chuvosos. Até o momento, porém, as chuvas não chegaram ao Rio Grande do Sul em uma quantidade suficiente para embalar o plantio da primeira safra de milho de 2015/16, que foi iniciado por alguns agricultores. A maioria, contudo, aguarda precipitações mais volumosas para deflagrar os trabalhos, segundo a Emater/RS. No verão, a "regra geral" em anos de El Niño é que aconteçam períodos chuvosos no centro do país e secas mais rigorosas no Nordeste. Mas outras alterações climáticas indicam que este pode não ser o padrão para o próximo verão, período de desenvolvimento das plantas em que o clima é crucial para a produtividade. A primeira alteração está relacionada ao ritmo de desenvolvimento do fenômeno. Assim como o sistema tem se fortalecido rapidamente nos últimos meses, ele pode perder força na mesma velocidade. Isso por causa de uma área do Pacífico próxima da Ásia onde as temperaturas não estão mais quentes que o normal - não configurando, dessa maneira, um "verão típico" de anos de El Niño. Outra alteração é um aquecimento acima da média nas águas no sul do Pacífico, perto do continente americano. Essa anomalia já ocorreu no verão passado e gerou falta de chuvas no centro brasileiro. Os mapas da Somar indicam que, em janeiro, essa porção estará extremamente quente, o que deverá conter as precipitações do próximo verão. "A planta pode se desenvolver melhor com chuvas pontuais. A produção de soja deverá ser recorde, mas vai ter quebra ante as previsões iniciais, porque o clima não vai ser "redondo". Pode haver impacto porque janeiro vai ser mais quente [que a média]", avaliou Santos. Ontem, o escritório de meteorologia do governo da Austrália confirmou que o El Niño deste ano já é o mais forte desde o ocorrido entre o inverno de 1997 e outono de 1998. Naquela safra, as colheitas de soja e milho apresentaram ganhos de produtividade no Brasil - o rendimento da safrinha de milho subiu 32%. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projeta a colheita brasileira de soja em 2015/16 em 97 milhões de toneladas, ante as 96,2 milhões estimadas pela Conab para 2014/15. Para o milho, o órgão americano prevê, no total, 79 milhões de toneladas, ante as 84,3 milhões estimadas pela autarquia brasileira para a safra passada. Fenômeno ganha mais intensidade O risco de um El Niño severo está se intensificando, e o fenômeno poderá ser um dos mais fortes em 65 anos, sinalizou ontem a Organização Mundial de Meteorologia (OMM). E, diante disso, o banco de investimento Nomura é um dos primeiros a alertar sobre a possibilidade de novas altas de preços de alimentos, maior especulação financeira nos mercados de commodities agrícolas e, consequentemente, mais protecionismo comercial. O El Niño provoca eventos climáticos extremos e se caracteriza por temperaturas da superfície do mar anormalmente elevadas na parte centro-oeste do Pacífico tropical. O fenômeno geralmente resulta em inundações no norte da América do Sul, pesadas chuvas no sul dos Estados Unidos e seca na Austrália e no oeste do Pacífico. Em relatório divulgado em Genebra, a OMM constata que em agosto tanto o oceano como a atmosfera no Pacífico tropical exibiram comportamento indicativo de um El Niño mais agudo. Além disso, a maioria dos modelos que monitora esse evento sugere que a temperatura do mar na região poderá ficar 2 graus Celsius acima da média histórica, o que faria do atual El Niño um dos quatro mais fortes desde 1950 - os outros foram em 1972-73, 1982-83 e 1997-98. O fenômeno de 2015-16 será mais potente no segundo semestre deste ano. O ponto alto desta vez pode ocorrer entre outubro e janeiro próximo. A OMM nota que o impacto do atual El Niño já é evidente em algumas regiões e isso ficará ainda mais claro nos próximos quatro a oito meses. Esse evento tipicamente perde força, e depois se dissipa, durante o primeiro e segundo trimestre do ano seguinte à sua formação. O último El Niño "gigante", entre 1997-98, matou 21 pessoas e deixou estragos em propriedades estimados em US$ 36 bilhões, sem mencionar os danos à agricultura. Além disso, não é incomum que o evento seja seguido por outro fenômeno climático, o La Niña, com secas se seguindo às inundações. Mas, além do El Niño, outros fatores podem resultar em aumento dos preços de alimentos nos próximos anos, conforme avaliação do banco Nomura. De um lado, a oferta está sendo impactada por menor ganho de produtividade. De outro, a demanda deve continuar a crescer. O banco afirma que entre os possíveis beneficiários da situação estão a Nova Zelândia, o Uruguai, a Holanda, a Argentina e a Noruega. Não menciona o Brasil. Do lado dos mais vulneráveis, a lista é grande e inclui Rússia, Indonésia, China, Índia, México, Egito, Nigéria, Paquistão. Fonte: Valor Econômico