Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, analisa os setores de grãos, carnes e cana e as dificuldades da safra de grãos colhida em 2015 Este é o momento de apertar o cinto, cortar custos e investir somente no essencial. É um ano de margens apertadas, especialmente na cultura de grãos, e sem condições para a implementação de uma política agrícola consistente no Ministério da Agricultura, em razão do ajuste fiscal. Mesmo diante deste cenário, o coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, mostra-se confiante na possibilidade da montagem de uma estratégia coordenada em 2016, capaz de colocar o Brasil numa situação onde políticas públicas como crédito, preço de garantia e mecanismos de comercialização com menor presença do Estado possam abrir um mercado mais liberal para os produtores rurais. A previsão é de um aumento significativo do custo de produção para a próxima safra de grãos. Esse custo impacta diretamente o bolso do produtor, que também enfrentará preços nada atrativos. Como o senhor avalia esse cenário? A safra que colhemos em 2015 teve uma vantagem em relação à próxima safra: nós plantamos no ano passado com o dólar a R$ 2,70 e colhemos com o dólar a R$ 3,10. Portanto, a remuneração em reais foi compensada pela valorização do dólar e tivemos uma safra com renda boa. Daqui para frente muitos custos vão subir por causa do câmbio. Importamos grande parte dos fertilizantes que consumimos no Brasil, alguns defensivos e equipamentos agrícolas e, seguramente, haverá aumento do custo de produção. Os preços agrícolas continuam caindo lá fora porque a oferta das commodities - os grãos, em especial - cresceu significativamente com safras recordes nos Estados Unidos, Canadá e também no Hemisfério Sul, com Brasil e Argentina liderando o processo. A compensação este ano foi o câmbio. Vai ocorrer isso novamente? Provavelmente não. Nós vamos plantar com o dólar a R$ 3 e colher com o dólar praticamente igual. Será um ano com margens apertadas, particularmente nas culturas de grãos. A única forma de fechar a conta é ter crédito abundante e barato. Mas, com o ajuste fiscal em andamento, provavelmente teremos taxas de juros entre 30 e 40% maiores que as taxas de juros do ano passado. Portanto, é outro custo que irá aumentar, mesmo que haja crédito abundante. Sem falar no aumento da questão tributária, dos impostos e taxas que serão colocados ao produtor. Com isso, a compensação que haveria com o crédito abundante não será suficiente por causa do custo desse crédito. Realmente ficará difícil fechar a conta. A única forma é apertar o cinto vigorosamente, fazer somente o investimento absolutamente essencial, transferindo para frente os investimentos que permitam esse tipo de decisão. Cortar os custos de todas as maneiras e botar a barba de molho. Não é um ano simples para as commodities em geral. Há algum setor que esteja compensando esse cenário ruim? A compensação é no setor de carnes. Tivemos alguns períodos em anos anteriores em que a matança de fêmeas ou matrizes foi grande. Houve até mesmo uma redução de bezerros de dois anos pra cá e, com isso, o preço da carne subiu. A oferta é muito ajustada à demanda e temos na carne uma vantagem por um ou dois anos. E o acordo feito agora com a China permite imaginar, a longo prazo, a manutenção de bons preços para a carne. Resumo da ópera: grãos com margem estreita e carnes em melhores condições. Há dificuldades ainda para a cana-de-açúcar e para o café que, mesmo com safra menor por causa de seca, é compensado em parte por preços melhores, mas não suficientes. Para o senhor, o produtor deve ficar atento a quais movimentos comerciais? Por quê? O produtor deve estar atento aos movimentos cíclicos de formação de preços e também os da economia mundial. Nós estamos assistindo a retomada da economia norte-americana, não tão espetacular quanto se imaginava. Até um ajuste de taxa de juros que deveria ter sido feito ainda no primeiro semestre nos Estados Unidos provavelmente vai ficar para o segundo semestre. E isso representa um mercado não muito robusto. Na União Europeia a situação é um pouco pior, mas há um horizonte também equilibrado, portanto, não resultando na abertura de mercados. Nossa chance é buscar mercado nos países emergentes em que as populações estão crescendo mais que nos países desenvolvidos, assim como a renda per capita. Em 2004, nosso maior mercado agrícola era a soma da União Europeia e Estados Unidos e mais da metade do que exportávamos seguia para lá. No ano passado foi menos de 30%. Em compensação, nesse período triplicamos o valor das nossas exportações porque nos voltamos para emergentes como China, países do Leste Europeu, Tigres Asiáticos e a própria África. Por isso é muito importante ficarmos atentos a todos esses movimentos e também aos movimentos do governo brasileiro. O ajuste fiscal é pesado e tem que ser feito. Temos que reconhecer que não há outra forma de consertar as contas públicas que foram arrasadas nos últimos anos por erros de governo. É um ano com inflação crescente, desemprego aumentando, com alguns sinais sociais negativos, redução do PIB em mais de 1%. Todo o cenário interno é preocupante e implica em um arrocho. Esses sinais e movimentos devem ser cuidadosamente observados, inclusive do ponto de vista das políticas públicas que possam vir a ocorrer ao longo do período. Analistas econômicos mais otimistas avaliam que no quarto trimestre deste ano começará a haver recuperação da economia. Se isso for verdade, será bom para o agronegócio, porque estaremos semeando a safra de verão 15/16, mas vamos aguardar. Como o senhor avalia a política agrícola do atual governo? De forma geral, não podemos dizer que temos uma política agrícola consistente no Brasil. Há uma política agrícola desenhada no Ministério da Agricultura pela interação do governo com as câmaras setoriais de quase todas as cadeias produtivas. O problema é que os instrumentos para implantar essa política agrícola não estão no Ministério. Logística e infraestrutura são os maiores problemas. No caso de logística, quem cuida é o Ministério dos Transportes e, para liberação de recursos, o responsável é o Ministério da Fazenda. É verdade que o atual governo começou a se mexer para melhorar as concessões de rodovias e hidrovias. Há uma boa mobilização com a nova lei dos portos. Existe um movimento positivo, mas ele não representa a solução de problemas logísticos de curto prazo. Outra questão que nos perturba muito é a ausência completa de uma política de renda capaz de reformular o crédito rural, pois a lei que o criou é de 1965 e o Brasil mudou muito em 50 anos. O seguro rural que criamos junto com o parlamento quando eu era ministro da Agricultura não avança por falta de posição mais ativa do governo. Doze anos depois de criado, o seguro rural não atinge a sexta parte da área agrícola do país. A cobertura é só contra problemas climáticos e não questões ligadas à renda, como os preços. Precisamos de um seguro rural muito mais forte. Com relação à política comercial, hoje 40% do comércio mundial de alimentos ocorre no âmbito de acordos bilaterais. O Brasil não tem acordo com nenhum país do mundo. Não só não temos como também estamos excluídos, enquanto os países estão fazendo acordos entre eles. Falta uma estratégia coordenada. Qual sua expectativa diante desse quadro? É preciso reconhecer que temos no Ministério da Agricultura a senadora Kátia Abreu que é muito competente e tem uma ligação de amizade com a presidente Dilma. Isso me deixa muito confiante que a política agrícola seja implementada em razão da influência da ministra sobre a presidente da República. Em ano de ajuste fiscal não temos muita expectativa, mas a partir do ano que vem espero ver a montagem de uma estratégia consolidada. Hoje minha relação com o Ministério da Agricultura é muito pequena. Atuo na Fundação Getulio Vargas e o que tenho feito são estudos, trabalhos e projetos para subsidiar o governo brasileiro como sobre o comércio com a China liderando o mercado asiático e sobre a agricultura na Amazônia (onde há 60 milhões de hectares degradados), com uma abordagem científica e isenta de paixões ou ideologias. A produção de grãos no Brasil teve um salto na produtividade nos últimos 25 anos. Como o senhor vê essa evolução e o que o produtor pode esperar pela frente? Nos últimos 25 anos a área plantada com grãos no Brasil cresceu 50% e a produção de grãos cresceu 238%, quase cinco vezes mais. Isso se deve à tecnologia gerada por nosso pessoal de pesquisa e difundida por nossos extensionistas e técnicos. Isso é espetacular. Nenhum país do mundo teve uma revolução tecnológica tão rápida como essa. Por trás desse número existe algo mais importante. Temos hoje no Brasil 57 milhões de hectares cultivados com grãos. Se tivéssemos a mesma produtividade de 25 anos atrás seriam necessários mais 69 milhões de hectares para colher a mesma safra deste ano. A tecnologia brasileira é extraordinária, tropical e é sustentável. Ando pelo Brasil inteiro e eu vejo os produtores rurais com a convicção de que sem tecnologia não há condição de competir. A produtividade média de soja no Brasil é em torno de 50 sacas por hectare, mas os produtores já falam que querem de 60 a 70 sacas. Há uma busca por tecnologia enorme no Brasil. Acontece que tecnologia custa dinheiro e para incorporar inovação é preciso renda. Estamos vivendo um momento que eu considero a antessala, o umbral de uma gigantesca revolução tecnológica na produção de cana, grãos, laranja, onde a biotecnologia, a nanotecnologia e a tecnologia da informação nas fazendas produzirão uma revolução sem precedentes, com saltos de produtividade cada vez maiores. É claro que as políticas públicas como crédito, preço de garantia, mecanismos de comercialização que reduzam a presença do Estado e abram um mercado mais liberal para produtores são essenciais, assim como as organizações das cooperativas e associações verticalizando a produção, industrializando a matéria-prima e gerando produtos com maior valor agregado para exportação e mercado interno. Está vindo uma revolução tecnológica maravilhosa que depende apenas de um incremento na renda rural. Isso porque os produtores brasileiros se deram conta de que não há como competir sem tecnologia. Agricultura de precisão, melhores práticas, novas tecnologias agrícolas que podem tocar quatro tratores sem tratorista ? tudo isso será uma mudança espetacular. A tecnologia é a base da competitividade. Só com tecnologias arrojadas e inovações vamos competir em igualdade com outros países. Mas é preciso investir muito mais em quem produz a base da tecnologia. Órgãos como o Instituto Agronômico de Campinas, o Instituto Biológico, as universidades que trabalham com pesquisa em agricultura precisam ser muito mais estimuladas com recursos financeiros. Estou muito aborrecido com o Governo de São Paulo. Órgãos de pesquisa estaduais com histórias maravilhosas têm hoje pesquisadores com salário muito baixo. É essencial defendê-los. O senhor esteve à frente da UNICA e viu mais de 60 usinas fecharem suas portas em meio a uma grave crise. Como o senhor avalia os prejuízos do setor? O setor foi submetido a um esmagamento no primeiro mandato do governo Dilma. No governo Lula, o setor teve vantagens, inclusive ele foi um dos defensores de que a agroenergia poderia mudar até a geopolítica mundial à medida que seria uma atividade dos países tropicais, beneficiados como supridores de energia para o planeta. Há um cenário espetacular onde a cana-de-açúcar é matéria-prima não só para combustível, como também bioeletricidade e biorrefinarias. Infelizmente a presidente Dilma usou o controle do preço da gasolina como um mecanismo de controle da inflação. Com isso, a Petrobras perdeu dinheiro porque comprava a gasolina lá fora por um preço e aqui vendia mais baixo. Como a gasolina ficou estabilizada, em algum momento perdemos a competitividade. Um desastre ao qual se somou um cenário mundial menos favorável para o açúcar, pois países concorrentes como Tailândia e Índia passaram a oferecer mais açúcar no mercado mundial. A oferta cresceu e os preços caíram. O setor viveu um momento dramático causado por políticas públicas totalmente inadequadas e com um cenário comercial global também pouco favorável. Somou-se aí o problema de clima, com dois anos de seca muito grande que afetaram a produtividade da cana. Produtividade e preço baixo só podem levar ao colapso, a uma verdadeira catástrofe para o setor sucroenergético brasileiro. Eu assumi a presidência da UNICA no ano passado e centrei a ação em três temas: a devolução da CIDE para melhorar a competitividade do etanol frente à gasolina, o aumento da mistura para o consumo maior do etanol no país e a tentativa de organizar o sistema tributário onde cada estado tem o seu ICMS, criando uma defasagem muito grande no setor. Felizmente essas missões foram cumpridas. A CIDE voltou, não integral, mas voltou recuperando a competitividade do etanol frente a gasolina; a mistura foi ampliada de 25% para 27% e alguns estados, como Minas Gerais, aumentaram a diferença entre o ICMS do álcool e da gasolina favorecendo o etanol. Isso tudo provocou um arejamento no setor de tal forma que as usinas menos endividadas rapidamente se aproveitaram desses fenômenos. Mas isso não foi suficiente para um grande número de usinas ? mais de 60 já fecharam e esse ano espera-se que mais 11 ou 12 encerrem atividades. Qual a estratégia necessária para recuperar o setor sucroalcooleiro? Nós precisamos de uma estratégia que considere todo o processo: de produção, do comércio internacional, de financiamento, da recuperação da indústria de base. Quando quebram usinas, o fabricante de moenda, de destilaria, os produtores de cana são duramente sacrificados pelo processo. É necessária uma revisão do Consecana que permita o pagamento da cana contemplando a novidade que é a bioeletricidade, a cogeração a partir do bagaço e da palha. O segmento precisa de uma revisão completa de políticas públicas e também de reorganização privada. Estou confiante que isso vai acontecer porque a ministra Kátia Abreu e os ministros de Minas e Energia e da Indústria e Comércio também defendem essa tese. Então estou otimista porque o fato é que o custo de energia continua subindo no Brasil e os problemas da Petrobras inibem o avanço mais rigoroso da exploração pelo pré-sal. Precisamos de uma estratégia específica, que considere sistema de produção, novas tecnologias ? como a cana pré-brotada, a semente de cana, os novos sistemas de plantio e a mecanização da cultura. Isso tudo são adaptações do setor que exigem dinheiro e é essencial que seja liberado. Já se fala hoje em uma produtividade de 300 toneladas de cana-energia por hectare, quando a media é de 80 toneladas por hectare e essa perspectiva é muito animadora. Por outro lado, há um aparente equilíbrio entre a oferta e a demanda mundial do açúcar, o que pode ajudar a melhorar os preços do produto. Como o senhor avalia a atual lei trabalhista? A aprovação da lei da terceirização seria uma saída? Como o senhor avalia essa questão no campo? Na estratégia necessária para que o agronegócio dê um salto de produtividade é preciso ampla revisão dos códigos que tem a ver com a agricultura. O próprio Código Florestal precisa ser revisado de maneira científica com menos ?achismo? e mais ciência. Há uma série de leis que devem ser modificadas, entre elas a trabalhista, que precisa ser flexibilizada para garantir relações mais fluidas. A terceirização pode ser um caminho desde que deixe os trabalhadores protegidos, com equilíbrio, bom senso, sem que nenhum setor seja prejudicado. Para isso naturalmente é necessária uma visão ?desideologizada?, mas clara quanto à democracia, igualdade de oportunidade e direitos garantidos, para que todos tenham condições de progredir. O que acho mais relevante é a produtividade do trabalho, pois o Brasil vem sofrendo muito não só na agricultura, mas em todos os setores da economia porque não temos avançado nessa área, o que nos leva a perder terreno todos os dias em relação aos nossos competidores. A flexibilização e a própria terceirização permitiriam que isso acontecesse, que houvesse renda crescente para trabalhadores e empregadores. Esse é o caminho a perseguir sempre tendo em vista uma questão central: não há crescimento de uma nação sem o desenvolvimento de todos os segmentos. É preciso que os segmentos menos protegidos se desenvolvam mais para que haja equilíbrio em toda a cadeia. Fonte: Revista KLFF - 11ª Ed.
