As janelas de preços favoráveis à comercialização de soja, abertas nas últimas semanas com a combinação entre dólar valorizado e algumas sessões de alta da oleaginosa na bolsa de Chicago, deflagraram o início das vendas da safra 2015/16, especialmente em Mato Grosso. Maior produtor nacional de grãos, o Estado dará partida ao plantio só em setembro, mas os agricultores buscam acelerar a comercialização de olho na tendência de queda das cotações da commodity, que deu o tom nos primeiros meses do ano e poderá se aprofundar no segundo semestre, em virtude da elevada oferta global. Levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostrou que 7,3% da produção de soja esperada em 2015/16 (o equivalente a cerca de 2 milhões de toneladas) foi negociada no último mês. Há um ano, como os preços estavam menos atraentes - em torno de R$ 44 a saca de 60 quilos - ainda não havia vendas envolvendo a safra 2014/15 no Estado. Em relação aos ciclos 2013/14 e 2012/13, porém, o ritmo atual de vendas é mais lento. Conforme o Imea, as cotações da soja de Mato Grosso com entrega futura (a principal referência é março de 2016) ficaram, na média, em R$ 51,51 por saca em maio. No mercado disponível, a média ficou em R$ 53,22 em maio e as negociações da safra que está terminando (2014/15) avançaram 4,5 pontos percentuais em relação ao mês anterior, para 78,9%. Ainda assim, estão 7,8 pontos aquém do mesmo período de 2014. Nos últimos dias, houve negócios fechados até acima dessas médias, segundo Andrea Cordeiro, analista da Labhoro Corretora de Mercadorias. "Vimos vendas saindo a R$ 54 e R$ 55 por saca no disponível em Sorriso (MT). Da safra nova, algumas tradings fizeram volumes expressivos e a cotação chegou a superar um pouco R$ 54 por saca", afirmou ela. Mas ainda há muita soja em estoque e o agricultor está de olho no câmbio, diz Anderson Galvão, da Céleres. Nos cálculos da consultoria, 65% da safra 2014/15 do país está vendida, ante 67% no mesmo intervalo de 2014, quando estava em jogo a comercialização do ciclo 2013/14. Em um momento em que o plantio da nova safra dos EUA evolui sem grandes obstáculos, a própria expectativa de mais uma colheita recorde em Mato Grosso em 2015/16 também reforça a necessidade dos produtores de aproveitar as boas oportunidades para antecipar as vendas. A previsão do Imea é que a área plantada com soja no Estado avance 1,8% sobre o ciclo passado, para 9,1 milhões de hectares. A produção deverá crescer 1,8%, a 28,4 milhões de toneladas. Se confirmado, será o maior volume da história, ainda que, como realça o instituto, o ritmo de crescimento previsto seja menor. Osvaldo Pasqualotto, coordenador da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) em Rondonópolis, afirma que depois das taxas de crescimento de 5% a 8% na área plantada nos últimos anos, não há indicação de que os produtores ampliarão o plantio em sua região. E há arrendatários devolvendo terras. "Eu mesmo tenho 20 mil hectares arrendados, 70% do que possuo, e já recebi de volta duas áreas de 3 mil hectares cada porque os produtores não vão suportar o aumento dos custos". Em boa medida, essa cautela espelha os custos de produção, que também deverão bater recorde em 2015/16, puxados pelos defensivos. O Imea já estima que serão necessários R$ 2.919,48 para implantar um hectare de soja transgênica em Mato Grosso, 21% mais que em 2014/15. Segundo Galvão, os vendedores de insumos enfrentam problemas para repassar as oscilações do câmbio, o que complica a formação de preços dos produtos. Mas se o dólar elevado é desfavorável ao produtor na compra de insumos, beneficia a comercialização de soja. "E se persistir a leitura de que a crise no Brasil não passou e o câmbio ficar entre R$ 3,30 e R$ 3,40 até o fim do ano, o produtor terá mais incentivo para vender soja com maior ímpeto". Fonte: Valor Econômico
