08 Apr, 2015

A maior demanda por biodiesel no país deve ter impacto direto nas lavouras. Responsável por 75% da matéria-prima usada na produção do biocombustível no país, a soja deve ser ainda mais disputada no mercado. Além disso, o aquecimento do setor deve fomentar a canola, cultura ainda coadjuvante na produção do combustível. No embalo da expectativa de colher uma supersafra de soja no Rio Grande do Sul ? 14,8 milhões de toneladas, conforme a Emater ?, o setor de biodiesel pretende se consolidar com uma boa alternativa ao agricultor. Para o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado (Aprosoja-RS), Décio Lopes Teixeira, a vantagem do interesse da indústria de biodiesel é que o grão passará a ser mais concorrido: ? Ter mais mercado é sempre bom para o produtor, que deve procurar o melhor preço. E a indústria de biodiesel pode nos oferecer vantagens como assistência técnica e logística. Na visão de Teixeira, é importante que Brasil incentive o setor de biodiesel para que o país passe a exportar o grão com maior valor agregado. Hoje, o país processa só 16% da produção de soja nacional em farelo e óleo, segundo estimativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). ? Com o processamento da soja aqui, em farelo e óleo, os empregos e a riqueza ficarão no Estado. Outra vantagem é que terá mais oferta de farelo perto, o que favorecerá a criação de frangos, suínos e gado ? observa Alencar Rugeri, assistente técnico da Emater. Rugeri explica que a indústria de biodiesel tem papel importante para desenvolver novas culturas no Estado, como a canola. Produzido no Sul e em Minas Gerais, o grão representa menos de 1% da matéria-prima, mas tem como trunfo o fato de ser plantado na entressafra de soja. A projeção da Associação Brasileira de Produtores de Canola (Abrascanola) é de que a área cultivada cresça 30% e chegue a 65 mil hectares no país ? 48 mil deles no Rio Grande do Sul, uma projeção 20% maior do que o plantado em 2014. ? Com preço baseado na cotação da soja, a canola é ótima alternativa para a rotação de culturas no inverno. Estudos mostram que seu cultivo melhora a produtividade da soja e do trigo plantados depois nas mesmas áreas ? destaca o presidente da Abrascanola, Luiz Gustavo Floss. Um terço da soja para óleo Do total que Leonardo Machado, 41 anos, colher nos 450 hectares de soja que plantou em Passo Fundo, 30% será destinado à indústria de biodiesel. A parceria foi firmada há sete anos: ? A indústria oferece assistência técnica à lavoura, paga bom preço pelo grão e tem a vantagem logística. Costumo entregar no mínimo 20% da safra anualmente ao biodiesel ? explica Machado, que estima colher este ano média de 70 sacas por hectare, recorde de sua lavoura. O restante da soja, conforme o produtor, será vendido a cooperativas e cerealistas. E a parceria de Machado com o biodiesel segue no inverno. Em 2014, ele destinou 135 hectares para a canola especialmente para a indústria. Neste ano, no entanto, planeja dividir a área entre trigo e aveia preta, em um sistema de rotação de culturas, para voltar à canola em 2016. ? Apesar de ter alto risco alto por resistir menos ao clima, a canola compensa por ter o preço da soja e mercado garantido. Produção de biodiesel deve crescer 25% no Brasil em 2015 Reação do setor, que teve recuo em 2014, é alicerçada na supersafra de soja, principal matéria-prima, e na lei que ampliou adição de biocombustível no diesel Após amargar o abandono de investimentos no início do ano passado, o setor de biodiesel brasileiro, que tem o Rio Grande do Sul como maior expoente, agora vê um futuro promissor. A aprovação de lei que ampliou para 7% a adição de biocombustível no diesel, em setembro passado, faz a Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) projetar um aumento de 25% na produção em 2015. Há um ano, o cenário era árido para o setor. Tida como o mercado do futuro em 2004, quando o governo federal lançou o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), com a meta de incentivar a produção do combustível verde no país, a indústria viveu momentos de incerteza e abandono de investimentos no último ano. Com a mistura obrigatória de biodiesel no diesel estagnada em 5% desde 2010, o país ingressou 2014 com uma ociosidade industrial de 56%. A demanda estável e a falta de competitividade para exportar fizeram pelo menos 20 indústrias que produziam biocombustível fecharem as portas ou migrarem de setor. ? As empresas passaram anos sem ter conhecimento da demanda de biodiesel a longo prazo e houve sobreoferta. Então, algumas não conseguiram manter os investimentos que fizeram ? explica Leonardo Botelho Zilio, assessor econômico da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). O alento para o setor só veio em 2014, quando uma lei ampliou a mistura para 6% em setembro e, a partir de novembro, para 7%. Além disso, outros dois fatores contribuíram: o bom desempenho no campo, que favorecerá a oferta de matéria-prima, e a desistência da Petrobras em construir duas refinarias, que abrirá espaço no mercado de combustíveis. Diante do novo cenário, a previsão é de que a ociosidade das empresas diminua para 44%. ? A ociosidade demonstra a necessidade de programas de longo prazo para o setor. Lutamos pelo aumento da mistura para 10% nos próximos dois anos e medidas que deixem o mercado competitivo internacionalmente ? afirma o presidente da Aprobio, Erasmo Carlos Battistella. Além de benéfico para o ambiente e para a saúde humana, o biodiesel também favorece a balança comercial brasileira. Battistella explica que, com o aumento da mistura, o país precisará importar menos diesel. Ao produzir 3,42 bilhões de litros de biodiesel em 2014, o país economizou US$ 2,59 bilhões em importação de diesel no ano, de acordo com levantamento da Aprobio. No cenário de preços atual, a tendência é de que o maior uso de biodiesel torne o diesel mais barato no país, aponta Luiz Fernando Gutierrez Roque, consultor da Safras & Mercado. No entanto, caso o valor do grão tenha alta, ele pondera que as indústrias terão dificuldades para comprar sua principal matéria-prima, e o valor do diesel subirá. Apesar do risco de oscilações, Roque avalia o aumento da mistura como positivo para a economia, já que incentiva o suprimento da demanda interna por combustível com a produção nacional. Indústria pede incentivo para exportar Em um país onde a produção de biodiesel depende do consumo interno, a exportação seria uma saída para diminuir a ociosidade industrial. Graças a incentivos tributários, hoje só a Argentina e a Indonésia exportam o produto, conforme a Aprobio. O biocombustível desses países representa apenas uma parte do consumo da Europa, mercado que as indústrias brasileiras sonham em conquistar. Primeira indústria do país a exportar biodiesel, a gaúcha BSBIOS, instalada em Passo Fundo, no norte do Estado, levou cerca de 40 mil toneladas do produto para a Holanda nos dois últimos anos. Atualmente, porém, reclama da falta de incentivos para a venda no Exterior. ? Estamos sempre de olho no mercado internacional, mas os custos de produção no país tornam a exportação inviável ? afirma Erasmo Carlos Battistella, diretor-presidente da BSBIOS e presidente da Aprobio. Para que o produto brasileiro se torne competitivo, o governo precisa dar incentivos tributários às empresas e melhorar a logística, observa o assessor econômico da Abiove Leonardo Botelho Zilio. Fonte: Zero Hora